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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Devemos Julgar?


Ruy Marinho (*)

O que mais se vê nestes “últimos dias” são heresias pregadas em muitas igrejas por aí. A cada dia ficamos mais indignados com tamanha distorção Bíblica, o Evangelho genuíno está sendo deixado de lado e sendo trocado por uma “teologia popular” voltada ao misticismo, aos modismos, as falsificações bíblicas e fetiches populares.

Apóstolos, pai-póstolos, gurus gospel tem surgido por aí trazendo um "outro evangelho". A palavra de Deus em sua essência é trocada por modismos, por hierarquias eclesiásticas, por dinheiro e por interesses particulares destes "super crentes". São tantos "shofás proféticos" que não aguento mais tanta barulheira. É tanto "mantra gospel" que meus ouvidos já estão estourando, é tanto ré-plé-plé que meu senso de racionalidade clama por socorro! Quebra de maldições hereditárias onde o crente nunca se converte de verdade, seções de descarrego, sabonetes de arruda, rosa ungida, sal grosso... É tanto "copo d'agua consagrado" que dá até vontade de ir ao banheiro. Unções especiais, urros, gritos, histerias, regressões, encontros tremendos, etc.

Diante de tudo isso, muitos Cristãos infelizmente tem se calado, pois existe um conceito errado de que não devemos julgar nada, que não é o nosso papel estar julgando o que ocorre com estas pessoas, principalmente se vamos falar de algum “líder” que esteja em um comportamento que vai contra as escrituras.

Resumindo, querem nos calar mesmo! Já não bastasse a perseguição contra os Cristãos que hoje em dia ocorre em muitos lugares no mundo, inclusive no Brasil, ainda temos que aguentar a distorção bíblica de que jamais deveremos abrir a boca de pastor x, apóstolo y, pois são os "ungidos de Deus". Nestes ninguém fala, até Davi foi repreendido pelo profeta Natan, mas estes líderes contemporâneos não podem ser repreendidos por algum erro ou heresia. É proibido pensar, é proibido julgar! Muitas mentes estão sendo cauterizadas por esta "nova doutrina".

Existem algumas passagens Bíblicas que muitos Cristãos têm interpretado erroneamente a respeito de julgamento. Meu compromisso nesta postagem é desmistificar e esclarecer ao Povo de Deus de que não devemos nos calar jamais, pelo contrário, devemos por obrigação exortar e lutar pelo Evangelho genuíno de Cristo, afinal, quem ama luta pela verdade, pois "O amor não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade". (1 Co 13:6).

“Não julgueis, para que não sejais julgados.” Mateus 7:1

Em primeiro lugar deixo claro que aqui JESUS claramente proíbe o julgamento. Mas a grande questão é se JESUS proíbe qualquer julgamento ou somente certo tipo de julgamento. O versículo 1 por si mesmo não nos dá uma resposta para esta pergunta. Por isso temos que aplicar uma regra fundamental para poder interpretar a Bíblia. Analisar sempre o contexto da passagem citada para poder saber de que se trata a mesma, pois sabemos que texto fora de contexto é um pré-texto para formar até mesmo uma heresia.

Para sabermos de que tipo de Julgamento JESUS proibiu nesta passagem vamos analisar o contexto:
“Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também. Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmão” Mt 7:2-5
Analisando o contexto podemos ver claramente que JESUS proíbe especificamente o “julgamento hipócrita”. Jesus diz aos judeus no versículo 1 que eles não devem julgar. No versículo 2, ele dá a razão pela qual eles não devem julgar: o padrão que eles usam para julgar os outros será o mesmo padrão que os outros usarão para julgá-los. Eles não devem ignorar seus próprios pecados, enquanto condenando os mesmos pecados nos outros. Fazer isto é julgar com um “padrão Duplo”, ou seja, julgar hipocritamente.

Não é hipócrita condenar o irmão por uma pequena falta, ou mesmo tentar ajudá-lo a sobrepujá-la, quando você mesmo é culpado de uma falta maior? Esta é a grande questão que JESUS estava colocando diante do povo nesta passagem.

Note que o pecado dos dois pecadores (a pessoa e seu irmão) é o mesmo em dois respeitos. Primeiro, é o mesmo em natureza: em ambos os casos um pedaço de madeira estava no olho da pessoa. Segundo, ambos estão atualmente pecando: o pedaço de madeira estava no olho deles naquele momento. A diferença entre as suas faltas é somente uma de tamanho: um pedaço é pequeno, e o outro é grande. É hipocrisia alguém cujo pecado é maior condenar alguém cujo pecado é menor, sendo em ambos os casos o mesmo tipo de pecado (vs 5). Em outras palavras, uma mulher que está abortando um feto de oito meses não está na posição de repreender um homem que mata um caixa de banco, e o homossexual não está na posição de criticar infidelidades num casamento homossexual!

Mateus 7:1, de acordo com o seu contexto, não proíbe todo julgamento e intolerância, mas somente o julgamento e intolerância hipócrita. De fato, ele requer de nós que, após nos arrependermos dos nossos próprios pecados, condenemos o pecado do irmão como pecado, e ajudemo-lo a se voltar dele.

“tira primeiro a trave do teu olho”, diz Jesus, “e então, verás claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmão”. Mt 7:5
Jesus ordena uma intolerância genuína, e não hipócrita, do pecado que o irmão comete.

Outra passagem bastante utilizada é João 8:7-11. O contexto é a história da mulher que foi pega no próprio ato de adultério e trazida a Jesus pelos escribas e fariseus. No versículo 7, Jesus diz aos escribas e fariseus: “Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra”. No versículo 11 ele fala para a mulher: “Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais”. Os defensores da tolerância usam estas palavras para argumentar que ninguém deveria condenar outras pessoas, pois não é melhor que elas.

Entendamos por ora que, quando alguém julga, ela dá um veredicto: Culpado ou inocente. Após ser julgada, a pessoa é sentenciada: A pessoa culpada é condenada (sentenciada ao castigo) e a inocente é liberta. O ponto é que julgar e condenar são duas coisas distintas, relacionadas, mas não idênticas.
Tendo isso em mente, note que Jesus de fato julga esta mulher, mas não a condena. Ao dizer-lhe “vai e não peques mais”, Jesus indica que ela tinha pecado. Em si mesma, a acusação dos fariseus estava correta, e Jesus julgou o pecado como sendo pecado.

Isto mostra intolerância pela ação pecaminosa! Seguindo o exemplo de Jesus, devemos dizer aos pecadores que mostrem arrependimento genuíno não mais cometendo pecado.

Embora Jesus tenha julgado a mulher, ele não a condenou. Ela pode ir embora: ela não foi executada. O evangelho para o pecador penitente é:

“Portanto, agora, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.”Rm 8:1

Esta é a mensagem que Jesus dá à mulher; o próprio Jesus foi condenado por ela! Ele suportou o castigo que lhe era devido, para que ela pudesse ser livre!

A resposta de Jesus aos fariseus expõe o julgamento hipócrita deles no assunto (o propósito primário deles, certamente, não tinha nada a ver com a mulher; era pegar Jesus em suas próprias palavras. Todavia, Jesus sabia que os fariseus se orgulhavam da justiça própria deles, e respondeu à luz deste fato).

Os fariseus, Jesus Recorda-os, também eram culpados de pecado, e especificamente de adultério, quer físico ou no coração. Porque também não eram livres de pecado, também eram dignos de morte como ela. Assim, ao desejar saber que julgamento ela deveria ter recebido, eles revelaram sua própria hipocrisia e motivação errônea.

João 8:7 e 11 nos ensinam como tratar os que pecam. O versículo 11 diz que devemos desejar o arrependimento do pecador; o versículo 7 nos ensina que não devemos fazer isso hipocritamente, nem com motivos errôneos ou de uma maneira imprópria. Contudo, a passagem não quer dizer que nunca devemos considerar as pessoas responsáveis por seus pecados (isto é, julgar o pecado como sendo pecado).

Agora gostaria de colocar as passagens Bíblicas que nos ordenam julgar.

João 7:24
“Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça”.

Outras passagens na Escritura nos ordenam positivamente a julgar. Uma passagem que nos diz isso claramente é esta citada acima. Ela se encontra no contexto da discussão de Jesus com os judeus que questionaram sua doutrina, e tinham-no acusado de ter um diabo (Jo 7:20) e de quebrar o dia do Sábado curando um homem (Jo 5:1-16). A eles Jesus diz: “Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça”. Ao dizer “não julgueis”, Jesus não pretende proibir o julgamento como tal, mas proibir certo tipo de julgamento, como a parte positiva deste versículo deixa claro. Podemos julgar, mas quando o fizermos, devemos julgar justamente.

O julgamento exterior e superficial – isto é, julgar simplesmente sobre base do que parece ser o caso, sem conhecer todos os fatos – é um julgamento imprudente, injusto e sem discernimento, que é contrário ao nono mandamento da lei de Deus. Deus odeia tal julgamento. O Julgamento justo é feito usando a lei de Deus como o padrão pelo qual discernimos se o que parece ser é o caso é realmente o caso.

1 Co 5
1 Coríntios 5 é um capítulo importante com respeito ao dever positivo de julgar. Primeiro, no versículo 3 Paulo declara, sob a inspiração do Espírito, que ele tinha julgado um membro da igreja em Corinto que estava vivendo no pecado da fornicação. Seu julgamento foi “seja entregue [tal pessoa] a Satanás para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no Dia do Senhor Jesus”. Este é um julgamento ousado da sua parte.

Segundo, nos versículos 9-13, Paulo lembra aos santos do seu dever de julgar as pessoas que estão dentro da igreja, quanto ao fato destes estarem, ou não, obedecendo a lei de Deus.

Aqueles que alegam ser cristãos e são membros da igreja, mas que são julgados como sendo impenitentemente desobedientes a qualquer mandamento da lei de Deus (vs 9-10), devem ser excluídos da comunhão da Igreja. Paulo, sob a inspiração do Espírito, diz para a igreja não tolerar pecadores impertinentes!

Outras passagens

Outras passagens também indicam que é nossa responsabilidade julgar. Jesus pergunta às pessoas em Lucas 12:57: “E por que não julgais também por vós mesmos o que é justo?”. Jesus repreende os escribas e fariseus em Mateus 23:23 e Lucas 11:23, dizendo: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém fazer essas coisas e não omitir aquelas”. Era o dever deles, de acordo com a lei, julgar – mas eles tinham falhado neste dever. Paulo orou para que o amor dos irmãos filipenses “aumentasse mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção”. (Fl 1:9). Ele diz aos de Corintos: “Falo como a criteriosos; julgai vós mesmos o que digo”. (1 Co 1:15).

Os cristãos são solicitados a examinar tudo e reter o bem (1 Ts 5:21). Eles também são obrigados a provar se os espíritos são de Deus: "Irmãos, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas tem saído pelo mundo afora." (1 Jo 4:1)

Mesmo nas reuniões cristãs eles devem "julgar" o que ouvem: "Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem." (1 Co 14:29).

Os Crentes de Corinto receberam ordens para julgar imediatamente a imoralidade existente entre os seus membros (1 Co 5:1-8). Mesmo o estrangeiro de passagem não deve ser hospedado se for verificado que não se trata de uma pessoa alicerçada na verdadeira fé (2 Jo 10,11). E um anátema (maldição) deve ser proferido contra aqueles que apresentarem um tipo diferente de evangelho (Gl 1:9).

Conclusão

Algumas passagens da Escritura parecem proibir o julgamento, enquanto outras claramente exigem isso. Estudando os contextos daquelas que parecem proibir o julgamento, descobrimos que o que é proibido não é realmente o julgamento em si, mas sim um tipo errôneo de julgamento. Deus odeia o julgamento hipócrita! Mas Deus ama o julgamento justo da parte dos seus filhos.

Portanto, é dever de todo Cristão julgar!

“Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado.” Gl 6:1

“Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina, pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se a fábulas.” 2 Tm 4:2-3

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Fonte: Blog BEREIANOS
Notas: (*) Resumido para fins de publicação. Artigo com base em trechos de "Julgar, o dever do Cristão" – Rev. Doug Kuiper
Ilustração de
Rubinho Pirola

Criticos! Quantas almas vocês já ganharam? Cuidado! Deus vai cobrar de vocês!


Alan Brizotti

Sempre que postamos alguma matéria mais contundente, mais confrontadora, surgem diversos comentários. Alguns favoráveis, outros mais ácidos e muitos absurdamente desconectados com o próprio texto. Dentre esses, destaco aqueles que, "protegidos" sob a máscara do anonimato (a coragem dos covardes), destilam todo o ódio teológico típico da mentalidade talibã dos legalistas.


Em sua maioria, esses gladiadores anônimos da verborreia teológica usam sempre a mesma arma: comparação! "Quantas almas vocês já ganharam?" É como se o reino de Deus fosse reduzido às estratégias de marketing das grandes empresas: quem ganha mais é quem produz mais! Esse evangelicalismo da produtividade confunde o reino com uma competição barata, onde os mais aptos (a velha lei do mais forte) sempre vencem.


"Por que, ao invés de criticar, vocês não evangelizam?" Simples, porque não é qualquer tipo de pregação que pode ser, de fato, evangelização. Evangelizar não é pregar uma teologia (seja ela qual for), mas o puro e simples Evangelho da Graça. Nesse Evangelho da Graça, é a essência que conta, não a evidência. É o miolo, não a casca. É a Graça, não a Lei. O que Jesus mais fez em sua estadia por aqui foi CRITICAR pesadamente os fariseus e sua teologia do "eu faço mais do que você".


"Cuidado! Deus vai cobrar de vocês" É a maldade teológica. A teologia da retribuição. É a Guantanamo da teologia. Estranho essa veia bélica dos que se dizem evangélicos mas não amam como Jesus. É uma teologia da ira, da irritabilidade: "quebra, mata, arrasa, pesa tua mão", uma espiritualidade da destruição. E o pior é que nessa destruição tenta-se legitimar uma santidade: "Vocês vão ver o quanto somos santos quando Deus detonar vocês". Ou seja, uma santidade que só se legitima na desgraça alheia. Se esse fosse o Jesus do Novo Testamento, não teria sobrado um único romano pra contar a história.


Louvo a Deus pelo fato magistral de a Bíblia não legitimar uma prática da comparação. Assim como não há como comparar a glória por vir, também não há como comparar níveis de santidade a partir de contabilidades eclesiásticas da culpa. Graças a Deus que, em Cristo, estamos livres da tentativa de agradar, livres para um amor que não é escravo dos números, nem dos bancos de dados das al-qaedas divinas.


Quer comparar? Experimente servir a Deus sem as neuroses legalistas e as invencionices dos falsos mestres... Não há comparação!


Abraço,


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Apologética da Compaixão

 Giuliano Barcelos

Ser apologista não é e nunca foi uma tarefa fácil. Defender a fé cristã requer muito estudo, uma boa dose de empenho, grande capacidade de argumentação e o gosto peculiar por questionar a tudo, até mesmo às próprias convicções e trazer respostas satisfatórias para nossa mente e espírito.
Este é um cenário propício para que se perca a essência do foco do ministério de Jesus, que também é nosso: as pessoas.
Não raro percebo um desvio do foco do trabalho apologético nas mais diversas formas: debates em listas de discussão, no Orkut, em programas de rádio ou de TV, em sites focados no tema ou não. Tristemente acompanho debates que são verdadeiras batalhas entre egos, onde o objetivo é ganhar a disputa, ainda que não sirva para mais nada além disto.
Meus anos como participante destes debates levam-me a uma triste constatação: não me recordo de ter visto nenhum debatedor, ainda que vencido pelos argumentos de outrem, converter-se genuinamente à fé cristã por conta de tal debate. As pessoas que são enganadas por seitas pseudocristãs têm em seus corações o desejo sincero de seguir a Cristo e crêem agir assim. É importante observarmos que todo o ministério de Cristo nesta terra foi pautado pela apologética. Com extrema habilidade e autoridade Jesus defendeu a fé genuína que havia sido vilipendiada pelos fariseus e escribas.
“Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque fechais aos homens o reino dos céus; pois nem vós entrais, nem aos que entrariam permitis entrar.” [Mt 23:13] Este era o tratamento “amoroso” que Jesus dispensava aos líderes religiosos da época. Em contrapartida, o povo que era conduzido pelos fariseus ao engano religioso era tratado de forma muito distinta: “Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas?” [Mt 6:26] 
Esta era a apologética que Jesus usava com o povo: a Apologética da Compaixão. Da mesma forma é assim que devemos agir com os enganados e oprimidos por sistemas religiosos corrompidos em seus princípios e em sua moral, que arrogam para si o título de igreja verdadeira de Jesus Cristo, mas que estão distantes de Cristo e, consequentemente, da verdade.
Para “pelejar pela fé que de uma vez para sempre foi entregue aos santos” [Jd 1:3b] é necessário não somente conhecimento, mas principalmente sabedoria e discernimento sobre como comunicar esta fé de forma a ser compreendida. C S Lewis escreveu certa vez: “Deus nunca se faz de filósofo diante de uma lavadeira”. Nosso Senhor sempre se comunica de forma totalmente inteligível com seus filhos e também com os que deseja alcançar. O mundo não tem ideia do que seja teologia, hermenêutica ou exegese, mas compreende muito bem o amor e a compaixão. Palavras bonitas são apenas palavras bonitas se não resplandecerem o amor de Deus e palavras difíceis não passam de empecilho para comunicar a verdade bíblica. É hora de revermos conceitos de como atuar na defesa da fé de forma satisfatória, que efetivamente conduza os perdidos e enganados ao caminho da salvação e não seja simplesmente mais um artigo escrito com anseio acadêmico.
Têm cristãos que se encontram frustrados, cansados e abatidos, pois defendem a fé cristã há anos ou até décadas e nenhuma alma ainda se converteu como resultado de sua pregação e ensino. O que talvez estes cristãos não percebam é que estão totalmente fora de sintonia com o mundo em que vivem e que estão oferecendo respostas a perguntas que ninguém mais faz.
A Apologética da Compaixão exercida por Jesus é universal e atemporal. Serviu de forma eficiente durante seu ministério terreno e continua a servir de forma eficientíssima nos tempos atuais.
Brennan Manning relata que o homem natural busca segurança, prazer e poder. O mundo pode oferecer tais benefícios, porém é limitado em sua forma, conteúdo e duração. Por mais segurança que se possa contratar, ninguém está imune a ter uma arma apontada para a cabeça durante um assalto. Por mais prazer que se possa encontrar, vai durar só um momento. Por mais poder que se possa acumular, uma virada na economia mundial ou um golpe de estado podem reduzir tal poder a nada.
Comunicar ao perdido a segurança infinita que só há na salvação em Cristo e que nem mesmo um tiro fatal na cabeça pode tirar tal segurança, que não há prazer terreno que se compare a estar eternamente na presença de Deus na Jerusarém Celestial e que o poder de Deus habita e atua em nós de forma inequívoca e que não podemos perdê-lo por conta dos acontecimentos é exercitar a apologética da compaixão. É correto o pensamento de Blaise Pascal que diz que o homem tem um vazio infinito dentro de si que só pode ser preenchido pelo infinito de Deus.
“A benignidade do Senhor jamais acaba, as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade.” [Lm 3:22-23] As misericórdias de Deus provêm de Seu amor incondicional e tem como resultado a compaixão.
Observo pessoas que se compadecem dos cachorros abandonados nas ruas. Dão-lhe em primeiro lugar um sinal de afeto, de amor e só depois oferecem água e comida. Por vezes tais pessoas vão além e passam a cuidar destes animais. É interessante observar que, mesmo a partir de uma demonstração de amor, muitos destes animais são arredios e desconfiados, vão aproximando-se devagar e a qualquer movimento ou barulho diferente já se esquivam e se distanciam, talvez temerosos pelas inúmeras vezes que foram agredidos, maltratados e ignorados. Por conta disto passam a agir defensivamente por instinto, por esperarem sempre o pior vindo dos homens.
De forma um tanto grotesca, podemos fazer uma analogia entre estes cachorros de rua e os perdidos. Estes também agem de forma defensiva, instintivamente, tamanha quantidade de vezes que já foram machucados pelo mundo ou por “igrejas” que se dizem cristãs. Por conta disto são arredios à Palavra de Deus e a qualquer coisa relacionada a religião. Ficar falando e falando para estas pessoas sobre o amor de Deus sem nenhuma atitude é como apenas contar para o cachorro abandonado como é uma tigela de água ou um prato de ração. Não será na primeira vez que um cachorro destes permitirá um banho ou o cuidado com uma orelha machucada e infeccionada. Mas, depois de demonstrado o amor, o carinho e o cuidado, o animal não sairá correndo em disparada ao ser tratado, ainda que sinta dor.
Os homens que estão afastados de Deus sofrem espiritualmente das mesmas mazelas e, pior ainda, muitas vezes refletidas em seus corpos.
A Apologética da Compaixão não vai tentar limpar e curar sem antes demonstrar o amor do Deus que limpa e cura. Quando servimos a Cristo de forma sincera e permitimos que o Espírito Santo de Deus nos guie sem restrições, manifestamos o mesmo amor de Deus pelas almas perdidas, que sofrem e padecem por estarem afastadas deste amor.
Neste mundo corrompido precisamos ser a voz profética que anuncia a verdade cristã e que defende as pessoas do engano lançado pela astúcia do inimigo de nossas almas, não combatendo contra a carne e o sangue, não combatendo as pessoas que estão neste engano, mas, ao contrário, demonstrando a elas com toda mansidão e doutrina a razão da nossa esperança em Cristo Jesus, amando-as como Cristo nos ama, sendo misericordiosos como nosso Deus é conosco e, movidos de íntima compaixão, conduzi-las ao entendimento da crença em Cristo e crer na ação do Espírito Santo para convencê-las do pecado, da justiça e do juízo. 


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

É suficiente expor a Verdade?

 Mateus Nogueira

Esses dias ouvi um barulho estranho no banheiro e fui verificar. Em um breve momento de distração nossa, nosso filho de 2 anos de idade estava com a escova de dentes dele na mão escovando os dentes. Até aí, nada de anormal... O problema começou quando vi o procedimento que ele adotava para a prática de sua higiene bucal: Ele molhava a escova na água do vaso sanitário e escovava os dentes, molhava novamente e ia repetindo o procedimento, como se não estivesse fazendo nada de errado. De imediato tomei a escova das mãos dele e ensinei que aquilo não deveria ser feito.

Fiquei pensando no episódio e cheguei a uma conclusão: Crianças não são capazes de perceber a diferença entre a água tratada que sai da fonte (neste caso a torneira) e a água contaminada (apesar de límpida) que está dentro da latrina. Deste modo, não basta ensinar para os pequeninos que toda a água incolor, inodora e insípida é própria para o consumo humano. É necessário alertá-los que a água presente e distribuída em determinados locais está contaminada e não pode sequer ser tocada com as mãos, o risco de contrair doenças é enorme.

Bem, isto me chama a atenção para a enxurrada de "água de latrina" que tem varrido alguns arraiais gospel por este mundo afora. São tantas aberrações que deixariam Paulo, Pedro e João assustados. Fariam Lutero aumentar o número de suas teses e, certamente provocariam (e provocarão, se Deus quiser) um movimento maior que a reforma protestante ocorrida há cerca de 500 anos.

Alguns, em nome da "ética", autopreservação e da política de boa vizinhança, se recusam a denunciar (ou mesmo admitir) que muitas atitudes e moveres contemporâneos não passam de "água da privada". Afirmam que basta pregar a Verdade e todos notarão o que não faz parte dela. Abandonam-se os princípios da Palavra de Deus e os alicerces estabelecidos pelos primeiros cristãos, admitindo-se toda a sorte de anomalias doutrinárias: Cai-cai, reteté, teologia da prosperidade, triunfalismo etc... Aqueles menos avisados, não conseguem perceber a diferença entre a Água Viva (Jo 4.14) e a água contaminada que tem sido oferecida por aí e crescem (?) bebendo água da privada.

Esta conduta omissiva contraria o exemplo de Cristo e a motivação da maioria das cartas do Novo Testamento. Paulo, Pedro, João, Judas e outros, escreveram diversas epístolas destinadas a alertar os cristãos de sua época para os perigos que rondavam (e ainda rondam) a igreja. Ora, se ensinar a Verdade fosse o suficiente, Jesus não exporia os erros e deturpações doutrinárias dos fariseus, saduceus, escribas (incluindo os membros do sinédrio), não expulsaria os vendilhões do templo (hoje daria trabalho, dado o grande número deles), não denunciaria a hipocrisia do sistema romano. Judas, e Pedro não denunciariam com tanta veemência os falsos mestres e falsos profetas. Tiago não exporia o estado miserável dos que confiam nas riquezas. Paulo não exporia os insubordinados, apóstatas, enganadores, falsos mestres e não daria "nome aos bois", como fez com Cefas, Himeneu, Demas, Fileto, Alexandre, Fígelo e Hermógenes. Em atitude semelhante, João não citaria Diótrefes, e suas falsas doutrinas. Lucas não narraria a atitude e recompensa de Ananias e Safira. Imagine se João Batista tivesse sido omisso? Ou ainda se contentasse em apenas ensinar a verdade e não denunciar a mentira? Do contrário, o maior dos nascidos de mulher, perdeu a sua cabeça por não apenas ensinar a verdade, mas por se opor à mentira.

Não basta mostrar aos filhos a água limpa e gelada no bebedouro, é preciso ensinar que a da latrina (apesar de ser semelhante à do bebedouro) está cheia de resquícios de fezes e urina, ainda que não consigamos enxergar sem uma análise mais apurada... 

Ou como escreveu Paulo Romeiro: "Imagine o  leitor se há um remédio sendo comercializado, trazendo perigo de morte á população. Certamente as emissoras de rádio e TV não conseguiriam prestar um serviço ao público levando ao ar o seguinte anúncio: “Informamos que há um remédio sendo vendido nas farmácias que poderá levá-lo à morte. Desde que não vamos citar o nome do remédio, tente descobrir por você mesmo”. Não seria isso um absurdo? Quando alguém descobrisse que remédio é esse, já seria tarde demais." (Romeiro, Paulo. Evangélicos em crise: São Paulo. 1995. p. 40)

A Bíblia não nos ensina a omissão, ela ensina ação! Omissão na Bíblia é sinônimo de covardia, e os covardes, bem, está escrito que não herdarão o Reino de Deus (AP 21.8 - ARA)... Em tempos de vendaval, ficar em cima do muro não é uma opção inteligente.

"E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles. Porque os tais não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples." Romanos 16.17-18 (ACF)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Crente fica Doente

Por Augustus Nicodemus Lopes
Chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pastor da Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, SP.


Creio em milagres. Creio que Deus cura hoje em resposta às orações de seu povo. Durante meu ministério pastoral, tenho orado por pessoas doentes que ficaram boas. Contudo, apesar de todas as orações, pedidos e súplicas que os crentes fazem a Deus quando ficam doentes, é um fato inegável que muitos continuam doentes e eventualmente,
chegam a morrer acometidos de doenças e males terminais.
Uma breve consulta feita à Capelania Hospitalar de grandes hospitais de algumas capitais do nosso país revela que há números elevados de evangélicos hospitalizados por todos os tipos de doenças que acometem as pessoas em geral. A proporção de evangélicos nos hospitais
acompanha a proporção de evangélicos no país. As doenças não fazem distinção religiosa.
Não fazem acepção de pessoas. Para muitos evangélicos, os crentes só adoecem e não são curados porque lhes falta fé em Deus. Todavia, apesar do ensino popular que a fé nos cura de todas as enfermidades, os hospitais e clínicas especializadas estão cheias de evangélicos de todas as denominações – tradicionais, pentecostais e neopentecostais – sofrendo dos mais diversos tipos de males. Será que poderemos dizer que todos eles, sem exceção, estão ali porque pecaram contra Deus, ficaram vulneráveis aos demônios e não têm fé suficiente para conseguir a cura?
É nesse ponto que muitos evangélicos que adoeceram, ou que têm parentes e amigos evangélicos que adoeceram, entram numa crise de fé. Muitos, decepcionados com a sua falta de melhora, ou com a morte de outros crentes fiéis, passam a não crer mais em nada e abandonam as suas igrejas e o próprio Evangelho. Outros permanecem, mas marcados pela dúvida e incerteza.
Eu gostaria de mostrar nesse artigo, todavia, que mesmo homens de fé podem ficar doentes, conforme a Bíblia e a história nos ensinam.

O que diz a história bíblica

Há diversos exemplos na Bíblia de homens de fé que adoeceram. Ao lermos a Bíblia como um todo, verificamos que homens de Deus, cheios de fé, ficaram doentes e até morreram dessas enfermidades. Um deles foi o próprio profeta Eliseu. A Bíblia diz que ele padeceu de uma enfermidade que finalmente o levou a morte: “Estando Eliseu padecendo da enfermidade de que havia de morrer” (2Rs 13.14).
Outro, foi Timóteo. Paulo recomendou-lhe um remédio caseiro por causa de problemas estomacais e enfermidades frequentes: “Não continues a beber somente água; usa um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades” (1Tm 5.23).
Ao final do seu ministério, Paulo registra a doença de um amigo que ele mesmo não conseguiu curar: “Erasto ficou em Corinto. Quanto a Trófimo, deixei-o doente em Mileto” (2Tm 4.20).
O próprio Paulo padecia do que chamou de “espinho na carne”. Apesar de suas orações e súplicas, Deus não o atendeu, e o apóstolo continuou a padecer desse mal (2Co 12.7-9). Alguns acham que se tratava da mesma enfermidade da qual Paulo padeceu quanto esteve entre os Gálatas: “a minha enfermidade na carne vos foi uma tentação, contudo, não me revelastes desprezo nem desgosto” (Gl 4.14). Alguns acham que era uma doença nos olhos, pois logo em seguida Paulo diz: “dou testemunho de que, se possível fora, teríeis arrancado os próprios olhos para mos dar” (Gl 4.15).
Também podemos mencionar Epafrodito, que ficou gravemente doente quando visitou o apóstolo Paulo: “[Epafrodito] estava angustiado porque ouvistes que adoeceu. Com efeito, adoeceu mortalmente; Deus, porém, se compadeceu dele e não somente dele, mas também de mim, para que eu não tivesse tristeza sobre tristeza” (Fp 2.26-27).
Temos ainda o caso de Jó, que mesmo sendo justo, fiel e temente a Deus, foi afligido durante vários meses por uma enfermidade, que a Bíblia descreve como sendo infligida por Satanás com permissão de Deus: “Então, saiu Satanás da presença do Senhor e feriu a Jó de tumores malignos, desde a planta do pé até ao alto da cabeça.
Jó, sentado em cinza, tomou um caco para com ele raspar-se” (Jó 2.7-8).
O grande servo de Deus, Isaque, sofria da vista quando envelheceu, a ponto de não saber distinguir entre Jacó e Esaú: “Tendo-se envelhecido Isaque e já não podendo ver, porque os olhos se lhe enfraqueciam” (Gn 27.1).
Esses e outros exemplos poderiam ser citados para mostrar que homens de Deus, fiéis e santos, foram vitimados por doenças e enfermidades.

O que diz a história da Igreja

O mesmo ocorre na história da Igreja. Nem mesmo cristãos de destaque na história da Igreja escaparam das doenças e dos males. João Calvino era um homem acometido com frequência de várias enfermidades. Mesmo aqueles que passaram a vida toda defendendo a cura pela fé também sofreram com as doenças. Alguns dos mais famosos acabaram morrendo de doenças e enfermidades. Um deles foi Edward Irving, chamado o pai do movimento carismático. Pregador brilhante, Irving acreditava que Deus estava restaurando na terra os dons apostólicos, inclusive o da cura divina. Ainda jovem, contraiu uma doença fatal. Morreu doente, sozinho, frustrado e decepcionado com Deus.
Um outro caso conhecido é o de Adoniran Gordon, um dos principais líderes do movimento de cura pela fé do século passado. Gordon morreu de bronquite, apesar da sua fé e da fé de seus amigos. A. B. Simpson, outro líder do movimento da cura pela fé, morreu de paralisia e arteriosclerose. Mais recentemente, morreu John Wimber, vitimado por um câncer de garganta. Wimber foi o fundador da igreja Vineyard Fellowship (“A Comunhão da Videira”) e do movimento moderno de “sinais e prodígios”. Ele, à semelhança de Gordon e Simpson, acreditava que pela fé em Cristo, o crente jamais ficaria doente. Líderes do movimento de cura pela fé no Brasil também têm ficado doentes. Não poucos deles usam óculos, para corrigir defeitos na vista e até têm defeito físico nas mãos. Kennet Hagin, conhecido pai do movimento “Palavra da Fé” e do triunfalismo neopentencostal, morreu vitimado de um infarto fulminante.
O meu ponto aqui é que cristãos verdadeiros, pessoas de fé, eventualmente adoeceram e morreram de enfermidades, conforme a Bíblia e a história claramente demonstram. O significado disso é múltiplo, desde o conceito de que as doenças nem sempre representam falta de fé até o fato de que Deus se reserva o direito soberano de curar quem ele quiser.

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